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111 ANOS DE PAIXÃO: SEM A BOLA ROLANDO, ATHLETIC DEIXA SAUDADE NO CORAÇÃO DOS FANÁTICOS

imagem: arquivo pessoal

Carol Rodrigues
Notícias Gerais

No final do mês passado, o Athletic Club comemorou 111 anos de muita história. Do campeonato amador até a profissionalização, é certo que o time surgido em São João del-Rei conquistou o coração de muita gente na cidade e também no entorno. 

Porém, já há mais de três meses sem entrar no gramado devido à medidas de segurança para evitar contaminação pelo novo coronavírus, o Athletic tem deixado saudade nos jogadores e nos torcedores, que não vêem a hora de estarem de novo fazendo barulho no campo.

Sem jogo, sem torcida?

O que não falta para o Athletic é torcedor. Com muita animação, amor e barulho, os fanáticos acompanham o time onde quer que ele vá jogar, não importa a distância. Mas e agora, como está a torcida sem os jogos?

Sem poder estar com o Athletic nos gramados, os torcedores se dividem entre a saudade, a expectativa e a preocupação. “Torcer pra mim é ajudar, é apoiar o time, é tentar levantar os jogadores, o próprio clube”, diz Carlos Eduardo Silva, que faz parte da torcida organizada.

O motorista, de 38 anos, conta que torce para o Athletic desde pequeno. Carlos é natural de Resende Costa e, quando era criança, acompanhava sempre um amigo que jogava como goleiro pelo time. Mas a paixão se intensificou mesmo a partir de 2018, com o início da campanha na terceira divisão do campeonato mineiro e a criação da torcida organizada. 

imagem: arquivo pessoal

Carlos Silva começou a acompanhar assiduamente o time e conta que já perdeu as contas de quantos jogos assistiu: “só ano passado, em 2019, eu fui em todos os jogos da série b”, revela. Mas o amor não é apenas quando a bola está rolando, o torcedor ajuda o time como pode. 

Como faz parte da torcida organizada, o motorista conta que grande parte do trabalho de apoiar o time também acontece fora dos 90 minutos. “Se o jogo começa às três horas da tarde, por exemplo, desde oito horas a gente está lá”. 

imagem: arquivo pessoal

Antes – e também depois – do espetáculo entre as quatro linhas, Carlos Silva e outros membros do chamado Esquadrão Alvinegro têm muito trabalho. “Existe toda uma questão fora do jogo pra organizar, que que ficar arrumando bandeira, faixa, conseguir patrocínio, são muitas coisas”, enumera. 

Por toda Minas Gerais

Para os athleticanos, sobra vontade. A torcida não deixa de acompanhar o time nos jogos em todo o estado. Jogando agora pela segunda divisão do Campeonato Mineiro, o time tenta o acesso à primeira divisão. 

No ano passado, o Athletic jogou em Ipatinga, a mais de 400 Km de São João del-Rei, o que não impediu a torcida de acompanhar. “A gente precisava estar colocando pessoas no estádio para marcar uma presença, para empurrar os jogadores, colocar eles para frente, para eles verem que a gente estava apoiando em um lugar muito longe”, relembra Carlos Silva. 

Como as despesas com a viagem são altas, o Esquadrão Alvinegro montou uma verdadeira força tarefa para arrecadar dinheiro na cidade.  Os torcedores foram para o centro, pedindo ajuda para comerciantes e pedestres para conseguirem acompanhar o time na partida. 

imagem: arquivo pessoal

Com muita determinação, eles conseguiram juntar por volta de R$ 4 mil e, com isso, puderam fretar um ônibus. Cerca de 45 athleticanos foram assistir e apoiar o time tão longe de casa, em um jogo difícil. “Chegamos lá, no final da partida acabamos perdendo, não deu. Pelo menos a gente estava lá, fomos com o ônibus cheio”, conta Carlos Silva. 

De geração para geração

Torcer pelo Athletic é algo que parece estar no sangue da família de Paulo Pires. O vendedor acompanha o time desde os 8 anos, quando foi levado pelo pai para assistir a primeira partida da sua vida: Athletic contra Minas. 

O time derrotou o rival e foi vencedor do campeonato amador naquele ano e, desde então, o atual vendedor não parou de torcer. “Quando o Athletic entrou em campo, começou a charanga a tocar, o papel picado, os foguetes, aí já foi paixão à primeira vista”, relembra Paulo. 

imagem: arquivo pessoal

Ele conta que esta é a melhor lembrança que tem do time. O pai de Paulo Pires faleceu há dois anos, mas a recordação da tarde em que passaram torcendo juntos para o Athletic pela primeira vez, permanece na memória.

“Eu estava de mãos dadas com meu pai e quando o time entrou em campo, começou a jogar papel picado para cima, foi a melhor coisa que teve”, conta. Por causa disso, Paulo manteve por muito tempo a tradição de levar papel picado aos jogos. 

A paixão pelo Athletic é passada de geração em geração. Paulo Pires conta que toda a família é athleticana, “meu pai que me incentivou […], começou com pai dele, que passou pra ele e ele passou para mim”.

Agora, pai de duas meninas – uma de 9 e outra de 4 anos – o torcedor mantém viva a tradição. Ele revela que leva sempre as filhas para assistir aos jogos e que as meninas adoram toda a festa.

Saudade da bola no pé

Há mais de 100 dias sem pisar no gramado, Davy Einstein Dias da Silva, zagueiro do Athletic, releva que não aguenta mais a saudade do clube e de jogar futebol. Com duas passagens pelo time, uma em 2019 e outra em 2020, o atleta tenta se manter em forma mesmo dentro de casa. 

O jogador conta que a última partida que disputou antes da proibição dos jogos devido à pandemia foi contra o Atlético Serranense, no dia 12 de maio. A disputa foi em São João del-Rei, já com portões fechados, sem torcida e o Athletic venceu por 2 x 0. 

imagem: arquivo pessoal

“Eu não aguento mais ficar sem jogar. O problema de tudo é que não tem nem como você jogar uma bola com os amigos, jogar um futebol na sua cidade, porque está tudo parado devido à pandemia”, lamenta Davy da Silva. 

O profissional diz que sente falta, também, da torcida e do convívio com os outros jogadores. “A gente gosta muito da resenha, de ficar ali com os companheiros no dia a dia, ter aquele momento com os companheiros e o treinamento é bom demais”.

Davy da Silva já passou por 10 clubes de Minas Gerais, como Tupi e Figueirense, e jogou por todo o estado, mas foi a torcida do Athletic que conquistou o coração do zagueiro. “É uma torcida que vai nos jogos independente da distância. […] Não vejo a torcida cornetando, falando mal do jogador, isso aí é uma coisa muito positiva e é difícil a gente achar”, comenta. 

Mesmo com portões fechados

Sem os jogos, a saudade do Athletic só aumenta a cada dia, seja da aglomeração, da torcida, dos jogadores ou da festa que é a partida. “Você passa na porta do estádio tudo fechado, parado, você sente falta de tudo isso, de toda a movimentação”, diz o torcedor Carlos Silva. 

O zagueiro Davy da Silva sabe da importância da torcida, “eu costumo falar que a torcida é o 12º jogador. A gente tem que buscar trazer ela pro nosso lado, com muita vontade, muita determinação, muita garra, que é o principal”, comenta. 

imagem: arquivo pessoal

E o Esquadrão Alvinegro mostrou que a paixão pelo time ultrapassa os muros do campo. Em um partida com portões fechados, no dia 14 de março, a torcida encontrou um jeito criativo de acompanhar o jogo. 

Os athleticanos Carlos Silva e Paulo Pires, junto com outros torcedores, conseguiram, no terreno vizinho ao campo, colocar um caminhão em cima de outro e assim, assistir à partida. “Isso aí na verdade é o desespero né, a gente viu que não ia conseguir entrar no estádio pra ver o futebol”, lembra Carlos. 

imagem: arquivo pessoal

Com o início da partida e a chegada de mais torcedores, cerca de 45 pessoas subiram nos caminhões para assistir o bate bola do Athletic. “Levamos a charanga, fizemos churrasco, a turma tomou a cerveja. Fica essa saudade, não sabe se volta ou se não volta”, conta Paulo Pires. 

Expectativa para o retorno

Lutando para conseguir o tão sonhado acesso à primeira divisão do Campeonato Mineiro, não falta expectativa sobre o retorno dos jogos e do time do Athletic. Com o aumento dos casos de Covid-19 no estado, a volta do futebol ainda é incerta. 

“O Fábio Mineiro [diretor de futebol do Athletic] estava fazendo um excelente trabalho, apesar de duas derrotas, o time estava voando, seria o ano que eu acho que ia subir da segunda divisão, aí fica nesse gostinho de quero mais”, opina Paulo Pires. 

Mesmo com toda a saudade e as dúvidas em relação a quais jogadores irão continuar no time quando houver o retorno, o athleticano considera que ainda não é o momento de voltar o futebol e a torcida. 

Para ele, pode ter a possibilidade do retorno dos jogos, caso sejam feitos os preparativos necessários e a testagem dos jogadores para o novo coronavírus. Porém, mesmo se as partidas sejam retomadas, Paulo acredita que ainda não é hora de incluir a torcida. 

imagem: arquivo pessoal

Para o zagueiro Davy da Silva, o momento ainda é incerto devido ao aumento dos casos e da falta de informação sobre o novo coronavírus em Minas Gerais. Porém, o jogador considera que o retorno dos campeonatos no estado pode estar próximo. 

“Eu vou falar pelo meu lado porque eu estou sentindo muita falta, eu acho que está na hora de voltar porque eu estou vendo vários campeonatos voltando”, opina. Para Davy, mesmo com a pressão dos jogadores, a decisão deve ser tomada de forma consciente pelas autoridades.

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