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TREM DE MINAS – O TÚNEL DO TEMPO DA EFOM EM BARBACENA, O VIRADOURO DOS TRENS E AS MEMÓRIAS DA GENTE

O único túnel da EFOM, localizado em Barbacena, foi tombado como patrimônio cultural e encontra-se bem preservado.
Foto: Najla Passos

Najla Passos *

A casa onde vivo hoje, em Barbacena, na Rua José de Alencar, no bairro Jardim, fica a menos de 50 metros de onde passavam os trilhos da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), a não mais de 150 metros do antigo viradouro dos trens, próximo da Ponte Seca, e a coisa de 200 metros do túnel Alberto Bernini, o único da linha inaugurada por D. Pedro II, em 1881.  

Eu nem sonhava em fazer parte deste mundo quando meus avós paternos adquiriram a propriedade, nos anos 1950. Eles haviam acabado de chegar do Rio de Janeiro em busca de clima ameno para meu vô Dunguinha curar a tuberculose que adquiriu trabalhando na Companhia Telefônica Brasileira. Depois de uma breve temporada no Grande Hotel, elegeram aquele local pacato para criarem os três filhos.

O bairro Jardim ainda não havia sido sequer planejado. Havia um vazio imenso, uma não-cidade, entre os trilhos da EFOM e os da Central do Brasil, lá ao longe, serpenteando o morro que abrigava a Escola Agrícola, hoje Instituto Federal Sudeste (IF-Sudeste). Então, era ali na fronteira da antiga estrada de ferro que meu pai e meus tios articulavam suas aventuras de crianças.

Foto histórica que mostra o antigo viradouro de trens de Barbacena, com a Maria Fumaça a frente, com o maquinista dentro da locomotiva e dois homens a frente dela.
O viradouro de trens da EFOM em Barbacena. Foto Felipe Souza Soares
A foto mostra a loja de piscina construída no local em que funcionava o viradouro de trens
Hoje, no local, há uma ampla loja de piscinas. Foto: Najla Passos

O viradouro dos trens, logo à esquerda, descendo o morro íngreme, com as simpáticas Marias Fumaças a um palmo das mãos, era o parque de diversões dos três meninos. Na memória do meu pai, ficou imortalizado o negro Bené, o funcionário da EFOM que tinha a tarefa de lustrar as locomotivas. Cabeça branca, ombros já encurvados, ele alisava a Maria Fumaça como se ela fosse a paixão da sua vida. Talvez fosse mesmo.

Mais abaixo da residência da família Passos, a direita, o túnel Alberto Bernini também atiçava o imaginário lúdico das crianças. Construído em pedras, em 1921, é a mais sólida memória da EFOM na cidade. Hoje ostenta até uma iluminação noturna, recém inaugurada, mas na época em que meus pai corria por ali com meus tios, era um breu danado…. e com direito a eco.

Quando os meninos cresceram, a família hospedou o primo Rui, recém chegado de Nova Iguaçu, que iria servir o Exército em São João del-Rei. Todas os finais de semana, ele voltava de trem para Barbacena. E ao findar do domingo, pegava a Maria Fumaça para se apresentar na cidade interligada pelos trilhos. Não raramente, perdia a hora e corria atrás dela com a farda pendurada no braço até a altura do túnel – outra cena imortalizada na memória da família.

Vozes silenciadas

Oito anos antes de eu vir ao mundo, a ditadura militar solapou a democracia brasileira. E naqueles anos de chumbo que se seguiram, enquanto as vozes dissidentes eram silenciadas nas sessões de torturas dos calabouços, o apito da Maria Fumaça também era caldo nos quase 800 quilômetros de trilhos da EFOM, arrancados das muitas localidades que, como Barbacena, se desenvolveram ao longo deles.

A ditadura de obras inacabadas como a Transamazônica defendia que o futuro do país estava no desenvolvimento do transporte rodoviário, na cantilena do cada um com seu próprio automóvel. Quando eu nasci, em 1972, muitos militantes pró-democracia já haviam passado desta para uma melhor. E a estrada de ferro não margeava mais a casa dos meus avós.

Sem ela, surgiu um novo pedaço de Barbacena por ali. No espaço da não-cidade que ficava entre as duas linhas de trem, cresceu e se consolidou o bairro Jardim, um espaço de vida pulsante onde vivi parte das minhas aventuras de criança. No local em que antes ficava o viradouro dos trens, hoje existe uma ampla loja de piscinas.

A jornalista Najla Passos passeando pelo túnel, na semana passada. Foto: Maria Helena Passos

E o tal “desenvolvimento” pregado pela ditadura segue o caminho tortuoso percorrido pelos antigos trilhos. Na estradinha de terra batida popularizada apenas como Linha D´Oeste, casas e condomínios, aparentemente sem nenhum planejamento urbanístico, continuam ocupando o leito dos antigos trilhos, até o distrito da Colônia Rodrigues Silva.   

Impossível saber quantos condomínios serão necessários para apagar toda a memória da Estrada de Ferro Oeste de Minas. O antigo túnel de pedra, no entanto, permanece firme. Tombado como patrimônio cultural de Barbacena pelo  Decreto n° 6.006/2007, ele é a memória que resiste à passagem do tempo e à falta de bom-senso de alguns governantes.

O túnel Alberto Bernini em foto em preto e branco antiga que mostra as manchas escuras da fumaça dos trens no teto.
Do acervo de Elton Belo Reis, do Barbaracenas, o túnel Alberto Bernini, antes da reforma, em foto de Glaucio Henrique Chaves, data desconhecida.

Najla Passos é mineira, jornalista, mestra em Linguagens e Literatura Brasileira e diretora-executiva do Notícias Gerais.

3 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo excelente artigo. A geração dos meus pais e avós vivenciaram bastante esses “anos dourados” de Barbacena, que foi a época que a Linha da Oeste operou na cidade.

    Pouca gente sabe, mas esse trecho de Barbacena era apenas um ramal da linha principal, e ficou ativo por somente cerca de 40 anos (de 1923 a 1965, aproximadamente). A linha tronco (principal) foi construída em 1881 (com alguns trechos ativos até hoje) e realmente faziam jus ao nome “Oeste de Minas”, pois iam até o Triângulo Mineiro…

    Voltando a Barbacena, a parte bacana é que a linha da E.F.O.M. integrava muito Barbacena aos municípios vizinhos à oeste, como Barroso, Tiradentes e São João Del Rey (hoje, a cidade acaba ficando mais ligada aos municípios no eixo da BR-040, e não tanto a essa bonita região à oeste como ocorria antigamente). Na época, minha família tinha muitos parentes que acabaram vivendo ou arrumando emprego em Barroso, São João Del Rey e região, e estavam sempre indo e voltando à Barbacena pela linha da Oeste.

    Só gostaria de fazer um aparte no seu texto, no que se refere à influencia do governo militar na desativação da ferrovia. Eles tiveram sim uma grande parcela de culpa, mas o sucateamento das ferrovias brasileiras foi um movimento que começou no governo JK, continuou no governo militar, e teve sua “pá de cal” no governo Sarney. Nesse período, os governantes tinham a mentalidade retrógada de pensar que ferrovias seriam “coisa do passado”. E até hoje estamos pagando essa fatura, com o caro e perigoso transporte rodoviário. Sábios foram os Europeus, que mantiveram sua rede ferroviária e hoje viajam em seus TGVs a 300km/h, a partir de chiques estações ferroviárias no centro da cidade, e sem o stress dos “checkins”, despacho de bagagem e verificações de segurança nos aeroportos…

    Com relação à desativação da E.F.O.M., tiveram dois grandes momentos. Um em 1965 (quando desativaram quase todos os ramais do sistema, como é o caso de Barbacena) e outro em 1983, que desativaram a parte da linha “tronco” de bitola estreita (que compreende o trecho que ia do estado do Rio de Janeiro até as proximidades de Divinópolis) só mantendo o trecho turístico de Tiradentes-SJ.Del Rey por pressão e articulação da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária). Também foram mantidos os trechos de bitola métrica que vão de Divinópolis até o Triângulo Mineiro (funcionam até hoje com trens de carga, sob a denominação de “Ferrovia Centro-Atlântica”)

    Deixo aqui a sugestão de outros artigos sobre a linha da Oeste… Adoraria ver outras fotos da época (como essa que vc postou). Sei também que ainda existem algumas pontes da “Oeste” nos arredores de Barbacena, que o pessoal gosta de visitar fazendo trilha de bike. Também ouvi dizer que a linha passava ao lado de uma cachoeira bonita. Ah, e exitem algumas histórias bem legais que o pessoal das antigas conta, como a do termo “CAFÉ DO BARROSO”: Quando o trem parava na estação de Barroso, os passageiros com destino à Barbacena desciam do trem correndo pra tomar um café na estação (pra esquentar o corpo antes de subir a serra de Barbacena). Mas as vezes o café demorava um pouco a sair (acho que demorava o normal, mas o povo estava com pressa pra voltar ao trem antes dele partir, então tinham a impressão que o café sempre demorava). Daí, dentre os Barbacenenses da época, cunhou-se a expressão “CAFÉ DO BARROSO”, pra se referir a qualquer café que está demorando a ficar pronto (tipo: “Esse seu cafezinho aí tá parecendo o Café do Barroso”)… Essas histórias vêm de pessoas que já estão bem velhinhas, então acho legal que sejam contadas pra que não sejam esquecidas 🙂

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