

Wanderson Nascimento
Notícias Gerais
O Dia Mundial da Saúde é celebrado nesta quarta-feira (7/4). A data coincide com a criação da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1948. Com a pandemia da Covid-19, que já ultrapassou os 330 mil mortos no Brasil, a saúde vem sendo protagonista há mais de um ano em todos os países.
Assim, nesta data marcante, o Notícias Gerais entrevistou representantes da saúde que pontuaram um pouco sobre o cenário atual e as expectativas para o futuro da saúde no Brasil, no estado e na região.
Para Sind-Saúde, hoje é dia de luta


(Imagem: Sind-Saúde / MG)
De acordo com o Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde), os profissionais não têm e nunca tiveram o que comemorar nesta data. “Infelizmente, o Dia Mundial da Saúde é um dia de luta também por valorização e reconhecimento, afinal, quem constrói e promove a saúde da população são principalmente os trabalhadores”, cita a direção.
Para a entidade, os profissionais não são valorizados o suficiente no Brasil. “O trabalhador da saúde é, na sua grande parte, muito desvalorizado. Mesmo o médico, com salários acima da maioria dos outros profissionais, tem disparidades salariais enormes entre si, tanto no setor público, quanto no privado. Hoje, a principal luta da saúde do trabalhador da saúde no Brasil é pelo piso da enfermagem”.
Com o avanço do novo coronavírus, a importância dos profissionais ficou evidenciada, mas também se destacou a desvalorização da classe. “A demanda aumentou com certeza, mas a oferta de atendimentos teve que priorizar o teletrabalho, principalmente para preservar, tanto os trabalhadores da base, quanto os do sindicato”, sinaliza a unidade sindical. “Os trabalhadores da saúde, além de exaustos pelo excesso de demanda, têm reclamado muito das propostas de privatização no SUS, reformas administrativas, falta de reajuste salarial e ainda cortes de salário em plena pandemia”, exemplifica.
E as expectativas não são boas para o futuro próximo. Para o cenário pós-pandemia, não há esperança de que os profissionais sejam valorizados. Portanto, a luta continua. “Gostaríamos de acreditar nas mudanças, e temos iniciativas importantes de aprovação do piso salarial da enfermagem, por exemplo, tramitando hoje na ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais), mas vai depender muito da mobilização dos trabalhadores pois, no que depende do governo, os projetos são de congelamentos de salários e carreiras, redução orçamentária, precarização de vínculo e retirada de direitos historicamente conquistados”, defende.
O Sindicato finaliza afirmando que a pandemia escancarou a realidade dos trabalhadores, principalmente nos municípios. “A data de hoje é um dia de luta pela saúde pública, principalmente pelo SUS. E deu pra notar que o SUS é importante, inclusive para quem tem plano de saúde. Nossa luta é para que o piso seja estendido a todos os profissionais de enfermagem, inclusive dos municípios, e que, para além disso, é muito importante valorizar todos os trabalhadores da saúde e não só os profissionais da linha de frente”, conclui o Sinds-Saúde.
Hospitais públicos enfrentam subfinanciamento


O NG também conversou com Ana Campos, administradora do Instituto Nossa Senhora do Carmo, entidade responsável pela gestão do Hospital de Barroso e do Lar Nossa Senhora de Fátima, instituições filantrópicas do município. De acordo com ela, o maior problema enfrentado pelas instituições públicas de saúde é o subfinanciamento.
“A nossa maior dificuldade sempre foi a questão financeira, uma vez que os recursos recebidos por meio de todas as esferas do governo são insuficientes para manter todos os serviços oferecidos pelo hospital. O custo de manutenção do hospital é muito alto, com despesas em torno de R$ 550 mil por mês e sempre estamos em déficit”, explica.
O hospital recebe recursos do SUS, que é tripartite – ou seja, abrange as três esferas governamentais, o município, o estado e a união. No entanto, esses recursos vêm direto do governo federal. No caso barrosense, também há os recursos da rede-resposta que vêm do estado; a subvenção, originária do município; e o serviço de sobreaviso dos médicos de urgência e emergência dos médicos clínica, como obstetrícia, cirurgia, anestesia, ortopedia, que são profissionais pagos pela administração municipal em parceria com o próprio hospital, que complementa esse pagamento. “Essa complementação é feita por meio de serviços que o hospital presta para planos de saúde, atendimentos particulares, exames de radiografias para empresas, e o maior recurso extra do hospital, que é o Sócio Contribuinte do Instituto (SCI), cujos associados pagam um valor mensal, que ajuda a subsidiar os demais custos”, declara.
Mesmo com os recursos extras, ainda não é suficiente para cobrir todas as despesas. Sendo assim, fica um déficit mensal, que requer da administração da entidade a realização de programas e ações beneficentes para arrecadar recursos para cobrir esse saldo negativo e não fechar as contas no vermelho. Entre essas ações, estão a realização de sorteios, rifas, feijoadas,vaquinhas, eventos.
“E quando não conseguimos solução para custear isso, ficamos na situação atual, quando não temos conseguir nenhum recurso e precisamos mexer na folha de pagamento, com demissões de funcionários, reduzir alguns insumos, apesar de a grande maioria ser impossível de reduzir. Com isso, os profissionais que continuam ficam sobrecarregados e vai gerando um efeito cascata, gerando reclamações da população”, esclarece.
De acordo com a administradora, com a pandemia, a rotina do hospital modificou muito e foi necessário passar por diversas mudanças para adequar a instituição para o atendimento dos pacientes com Covid-19. “A gente tem feito atendimento de paciente de UTI. Não temos credenciamento de UTI, não temos know hall para isso, mas acabamos sendo obrigados a realizar esse serviço, então foi extremamente complicado a gente se adequar a essa nova realidade”.
Ela destaca, porém, que em relação a equipamentos, os recursos que vieram exclusivamente para enfrentamento ao novo coronavírus, ajudaram muito a instituição. “Nós conseguimos equipar bem o hospital. Boa parte dos recursos foi utilizada para equipamentos que nós não tínhamos. Porém, por outro lado, tudo encareceu demais. Antes não comprávamos porque não tínhamos dinheiro. Quando veio o recurso para comprar, não conseguimos adquirir a quantidade suficiente, justamente pelo aumento absurdo dos preços”, aponta.
Ana relata também sobre a dificuldade na contratação de médicos, uma vez que o município está entre Barbacena e São João del-Rei, duas cidades que têm condições de remunerar melhor os profissionais e, portanto, há essa dificuldade de contratar médico. “Nossa demanda também é muito alta, principalmente no pronto-atendimento, que realiza uma média de 100 atendimentos diários, o que necessitaria de dois a três plantonistas – e, no entanto, só temos um. Então, a maioria dos médicos prefere ir para outra cidade, onde tem um colega para dar suporte”, revela.
Um misto de orgulho e cansaço resume o sentimento da administradora e de sua equipe, gerindo uma instituição pública em meio à pandemia. “Nós nos sentimos honrados, por fazer um serviço de grande relevância na cidade, para a população de Barroso e outros municípios que atendemos, porém é um serviço em que a gente se sente apagando incêndio o tempo inteiro. Não se tem tempo de pensar, de planejar, de ‘ver além do monte'”.
“Ficamos por conta de resolver problemas, justificando coisas para a população; às vezes saem alguns assuntos que nos deixam muito tristes e, por mais que tentamos explicar, as pessoas entendem como convém, o que nos dá uma sensação de importência. A saúde é muito pouco valorizada, pouco bem vista no país, e as linhas de frente, que são os hospitais, as urgências e emergências, sofrem bastante com isso. A sensação é mesmo de importância”, desabafa.
Sobre as expectativas para o futuro, principalmente após a pandemia, Ana afirma ser muito otimista.
“Eu acho e espero que, após a pandemia, a visão que a população e o governo têm em relação à saúde como um todo seja melhor, que fiquemos mais valorizados, porque pelo serviço que tem sido executado, temos visto que as linhas de frente têm trabalhado incansavelmente para enfrentar esse vírus”
– acredita Ana Campos, gestora do Hospital de Barroso.
“Nós nos descobrimos como somos importantes na rede de saúde e espero que essa importância seja reconhecida, principalmente em relação ao financiamento, que sempre foi aquém do que precisa, passando a impressão de que os hospitais e instituições de saúde ficam sempre pedindo e pedindo. Ninguém pede porque quer pedir, a verdade é porque sempre foi insuficiente. Creio que, num futuro bem próximo, passemos a ser mais bem reconhecidos no sentido financeiro e de prestação de serviço social à comunidade, porque saúde é uma coisa imprescindível, que tem que ter seu valor reconhecido”, conclui.
Ações nacionais
Para marcar a data, organizações nacionais desenvolvem uma série de atividades com objetivo de reforçar a importância da área e da atuação de profissionais de saúde nos dias atuais.
A Semana Nacional da Saúde 2021 é uma ação liderada pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS). Neste ano, o evento contará com lives, debates e manifestações on-line. Esta edição irá analisar a situação da saúde no Brasil. Além disso, também nesta quarta, foi marcado um twittaço (mutirão de publicações no Twitter) em defesa da saúde, da vacina e do SUS.
A Campanha Nacional “Fora Bolsonaro” também previu ações para marcar a data. Durante o período mais grave da pandemia para o Brasil, o movimento está propondo ações de militância tanto no ambiente off-line, quanto no on-line. O material com orientações pode ser acessado aqui: http://bit.ly/passoapasso7abril.
O objetivo da campanha do CNS é defender o Sistema Único de Saúde (SUS) como política pública inclusiva e de qualidade, fruto da conquista do povo brasileiro e seu papel fundamental para o combate à pandemia da Covid-19. Também, a garantia da vacinação para todas e todos.

