

Wanderson Nascimento
Notícias Gerais
Pouco mais de um ano de pandemia da covid-19 no Brasil e o país já ultrapassa os 420 mil mortos. Só nos primeiros quatro meses de 2021, a doença já matou mais brasileiros do que durante todo o ano passado, e também já matou mais brasileiros do que a Aids, desde 1996.
São números assustadores de uma infecção que enfrenta, além da infraestrutura insuficiente do sistema de saúde brasileiro, o mal do negacionismo e da ignorância, que culminam com a piora desse cenário e o grande aumento de mortes, principalmente de pessoas mais vulneráveis, como os idosos.
Além do sistema de saúde, o Brasil já enfrenta uma sobrecarga no sistema funerário, principalmente em cidades pequenas, como as da região, que geralmente dispõe de apenas um cemitério e, com as exigências específicas para sepultamento das vítimas da covid-19, a situação acaba se complicando.
A reportagem do Notícias Gerais fez um levantamento da situação de cemitérios de São João del-Rei e traz informações sobre as vagas e as mudanças de rotina que o setor enfrentou com a pandemia da covid-19.
Beth Silva, responsável pela administração dos cemitérios municipais da cidade, afirma que, em relação às vagas, a situação está sob controle. No entanto, por precaução, houve uma redução no tempo para exumação de restos mortais, com objetivo de se evitar uma sobrecarga e, com isso, uma possível falta de vagas.
“Nós temos sim condições de ir acomodando, à medida que forem ocorrendo os óbitos. Para isso, foi necessário que antecipássemos algumas exumações, pois antigamente o cemitério dava um prazo de cinco anos entre o sepultamento e a exumação, mas, devido ao agravamento da pandemia em 2021, seguindo o regimento interno do cemitério, nós reduzimos esse tempo de três a quatro meses. Restos mortais que seriam exumados em julho, por exemplo, foram exumados em abril, e assim sucessivamente”, declara.
Segundo ela, há diferença também nos locais de sepultamento. “A preferência para sepultamentos no chão é para vítimas de covid. Para os demais, usa-se as gavetas. Portanto, em questão de espaço e de vagas, temos a disponibilidade necessária para São João del-Rei”, acrescenta.
“Da segunda quinzena de março de 2020 até final de abril de 2021, tivemos 487 sepultamentos, sendo 10,97% por covid, uma porcentagem que já aumentou até a data atual”
Aumento notável
A administradora conta que nesse pouco mais de um ano de pandemia é notável o aumento no número de sepultamentos. “No cemitério municipal, hoje, temos cerca de 60 pessoas sepultadas com covid. Infelizmente o número de óbitos cresceu muito em relação aos outros anos também por outras causas. Teve um mês que nós sepultamos 38 pessoas e, dessas, nenhuma foi por covid-19. Da segunda quinzena de março de 2020 até final de abril de 2021, tivemos 487 sepultamentos, sendo 10,97% por covid, uma porcentagem que já aumentou até a data atual”.
Ela explica também que houve uma grande mudança na rotina de trabalho, com diversas adequações, para redução de riscos de contaminação de funcionários e também de visitantes do cemitério. “Foram feitas alguma alterações, desde a primeira onda da pandemia. O sepultamento de vítimas de covid não tem velório, o corpo sai do hospital direto para sepultamento. Se a morte acontecer à noite, ou pela madrugada, fica para ser sepultado na primeira hora do dia, com todos os protocolos. Atualmente, o sepultamento pode ser acompanhado no máximo por 10 a 15 pessoas”.


Beth ainda destaca as mudanças que foram feitas na rotina dos funcionários, tanto do setor administrativo, como da parte funcional, dos coveiros e serviços gerais: “Eles usam a mesma vestimenta que se usa nos hospitais e nas funerárias, com macacão, luva, touca, óculos, máscara facial, entre outros. Há todo um cuidado com a higienização da correntes, utilizando-se hipoclorito de sódio; as luvas utilizadas já são descartadas dentro do túmulo. Houve também redução do tempo dos funcionários dentro do cemitério, para que eles não precisassem ficar lá tanto tempo sem necessidade, evitando-se também que as pessoas ficassem entrando com muita frequência”.
“Quando há óbito por covid, são proibidas as visitas ao cemitério por 72 horas. Os cemitérios também estão sendo fechados mais cedo, justamente para evitar que as pessoas façam aglomeração lá dentro e possíveis constrangimentos, como desacato a funcionários, que já aconteceu. Estamos também colocando avisos para que as pessoas não transitem na área de sepultamento de covid”
Autorização para exumação
Beth finaliza fazendo o pedido aos familiares de pessoas sepultadas no ano de 2016, até o mês de agosto, para que compareçam ao cemitério para que autorizem a exumação dos restos mortais, para evitar que esses familiares sofram com a espera por vagas, caso infelizmente haja necessidade de mais algum sepultamento.