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A VIDA DEPOIS DO TOMBO: DOCUMENTÁRIO ESPETACULARIZA CANCELAMENTO

Imagem: divulgação

Luis Felipe Seufitelli *

Está disponível no Globoplay, plataforma de streaming da Globo, o documentário “A Vida Depois do Tombo”, que explora os bastidores da eliminação histórica de Karol Conká do Big Brother Brasil 21 e os maus bocados que a cantora teve que enfrentar após uma avalanche de ódio nacional. A dúvida que fica é: a produção vale o seu stream? Aqueles que reagiram com repugnância às atitudes da cantora no programa afirmam categoricamente que não irão assistir. Se você está na dúvida, aqui vai a opinião de alguém que assistiu.

Na primeira metade do filme, vemos Karol numa sala escura cercada por telões, onde ela assiste todos os momentos polêmicos que protagonizou no reality show. Trinta dias de confinamento na casa foram suficientes para uma catástrofe completa na carreira da rapper curitibana. Fica clara a capitalização da TV Globo a partir do cancelamento sofrido pela cantora. Por algum motivo desconhecido, a exploração da desgraça alheia é um atrativo. Sabemos que os vilões costumam engajar o público muito mais do que os mocinhos, e com a Karol Conká não seria diferente. A exposição midiática da sua figura gera lucro, e assim giram as engrenagens do mundo capitalista contemporâneo.

Por outro lado, há um paradoxo nesse jogo. Ao mesmo tempo em que promove um espetáculo da desgraça, o documentário humaniza quando traz depoimentos dos seus familiares, diretamente afetados pela onda de ódio que se instaurou sobre ela. Um dos momentos mais tocantes é o relato do filho dela, que chegou a sofrer bullying na escola e se viu obrigado a excluir as suas redes sociais. É impossível não se colocar no lugar daquele adolescente de apenas 15 anos, que estava assistindo a própria mãe ser atacada por milhões de pessoas.

Eliminar Karol Conká (do jogo e da vida) tornou-se uma catarse nacional. Existe também a tentativa de justificar minimamente os motivos do seu comportamento dentro do programa, a partir de uma contextualização da sua infância e adolescência – marcadas pelo racismo estrutural e traumas com o alcoolismo do pai, além do resgate de todo um background acerca dos problemas na carreira e as disputas judiciais com parceiros musicais.

Pelo documentário, também vemos que o racismo se fez presente nas razões por trás de todo esse ódio coletivo. Em alguns vídeos expostos na produção, é possível ver xingamentos de teor racista nas varandas dos apartamentos após o anúncio do resultado do paredão que provocou a saída de Karol com 99,17% dos votos. Essa porcentagem assustadora deveria ser o suficiente para que tudo terminasse ali, mas os ataques continuaram após a eliminação.

Se o Brasil não fosse um país declaradamente racista, com péssimos antecedentes históricos, seria até viável acreditar que a questão racial não está envolvida. Quem acompanha o programa há muito tempo, sabe que já passaram pela casa uma dezena de participantes ainda mais problemáticos do que ela. No entanto, nunca houve na história do Big Brother Brasil uma participante tão rechaçada pelo público, nos quase 20 anos que o programa é exibido no país.

Apesar das ressalvas, a produção tem o seu mérito ao propor um novo olhar do público sobre toda essa questão. Para a “Mamacita”, como Karol vem sendo chamada na internet, talvez o doc seja um divisor de águas para que ela possa finalmente virar essa página. Para os espectadores, é um choque de realidade para que as pessoas vejam o quanto passaram do ponto. Como em todos os episódios de cancelamento, os canceladores costumam superar os cancelados ao reproduzirem os mesmos erros ou até pior, sendo Karol Conká mais uma vítima dessa realidade.

* É estudante de Comunicação Social – Jornalismo da UFSJ e produziu este texto sob a orientação do professor Paulo Caetano, durante a disciplina remota de Produção Textual.

Os artigos de opinião e colunas publicados não refletem necessariamente a opinião do portal Notícias Gerais.
Por outro lado, há um paradoxo nesse jogo. Ao mesmo tempo em que promove um espetáculo
da desgraça, o documentário humaniza quando traz depoimentos dos seus familiares,
diretamente afetados pela onda de ódio que se instaurou sobre ela. Um dos momentos mais
tocantes é o relato do filho dela, que chegou a sofrer bullying na escola e se viu obrigado a
excluir as suas redes sociais. É impossível não se colocar no lugar daquele adolescente de
apenas 15 anos, que estava assistindo a própria mãe ser atacada por milhões de pessoas.
Eliminar Karol Conká (do jogo e da vida) tornou-se uma catarse nacional.
Existe também a tentativa de justificar minimamente os motivos do seu comportamento dentro
do programa, a partir de uma contextualização da sua infância e adolescência – marcadas pelo
racismo estrutural e traumas com o alcoolismo do pai, além do resgate de todo um background
acerca dos problemas na carreira e as disputas judiciais com parceiros musicais.
Pelo documentário, também vemos que o racismo se fez presente nas razões por trás de todo
esse ódio coletivo. Em alguns vídeos expostos na produção, é possível ver xingamentos de teor
racista nas varandas dos apartamentos após o anúncio do resultado do paredão que provocou a
saída de Karol com 99,17% dos votos. Essa porcentagem assustadora deveria ser o suficiente
para que tudo terminasse ali, mas os ataques continuaram após a eliminação. Se o Brasil não
fosse um país declaradamente racista, com péssimos antecedentes históricos, seria até viável
acreditar que a questão racial não está envolvida. Quem acompanha o programa há muito
tempo, sabe que já passaram pela casa uma dezena de participantes ainda mais problemáticos
do que ela. No entanto, nunca houve na história do Big Brother Brasil uma participante tão
rechaçada pelo público, nos quase 20 anos que o programa é exibido no país.
Apesar das ressalvas, a produção tem o seu mérito ao propor um novo olhar do público sobre
toda essa questão. Para a “Mamacita”, como Karol vem sendo chamada na internet, talvez o
doc seja um divisor de águas para que ela possa finalmente virar essa página. Para os
espectadores, é um choque de realidade para que as pessoas vejam o quanto passaram do ponto.
Como em todos os episódios de cancelamento, os canceladores costumam superar os
cancelados ao reproduzirem os mesmos erros ou até pior, sendo Karol Conká mais uma vítima

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