Início Opinião Crônica CRÔNICA: FEITO NOVO, COMO SEMPRE

CRÔNICA: FEITO NOVO, COMO SEMPRE

Foto: Sakuie

Sofia Teixeira*

Acredito que, assim como eu, você, meu caro leitor, já se pegou pensando durante esse período de isolamento algo como: “na minha infância, eu imaginava que em 2020 já teríamos carros voadores”. Se não pensou, com certeza viu alguém na internet refletindo sobre.

Eu mesma imaginava que, além disso, estaríamos todos vestindo roupas prateadas e administrando casa, trabalho e lazer através de sistemas holográficos e sei lá mais o quê. Acontece que as coisas tomaram um jeito meio diferente, e o “novo normal” de 2020 que eu tanto idealizei em minha infância veio disfarçado de flashback.

O retrato apocalíptico dessa reta final da década tem sido bem emocionante, porém nada que, aos olhos dos livros de história (se ainda existirem) de daqui 100 anos, não será visto como “nossa, mas DE NOVO ISSO?”.

Pense comigo: começamos o ano com uma ameaça de guerra nuclear a la Guerra Fria. De lá, passamos por crise econômica (não que essa tenha acabado), uma doença que está matando gente pelo mundo inteiro (não preciso nem citar quantas vezes populações já foram dizimadas numa história dessa) e, de quebra, encaramos passeatas anti-racistas e uma possível ascensão fascista como em meados do século passado.

Imagino que, aos olhos de quem deslizou por grande parte do século XX, isso tudo deva ser no mínimo absurdo. Suponhamos que na sua casa pessoas venham usando errado todos os dias uma determinada ferramenta que acaba estragando, e com muito custo você a põe de volta ao eixo.

Após seu feito, a ferramenta melhora seu desempenho, passando a apresentar progresso até em outros problemas que surgiam paralelamente. Aí, uma pessoa mais nova de sua família começa a usá-la do jeito antigo que não dava certo e, mesmo você avisando, ela continua, e a pobre ferramenta emperra novamente.

Aposto que você se sentiria com todos os esforços desperdiçados, simplesmente porque alguém decidiu ser negligente, mesmo você aconselhando sobre o uso correto. É basicamente isso que fazemos com todos os esforços feitos pelos movimentos sociais que surgiram no passado, pelos avanços nos campos de pesquisa científicos…

Nós nos tornamos basicamente uma máquina de reciclagem, no pior sentido que isso possa representar. Infelizmente, não voltado para a natureza, a qual realmente necessita de medidas semelhantes, mas, como eu disse, ninguém escuta aos avisos passados das vezes que a nossa pobre hospedeira se esgotou.

Aí você me pergunta: como vamos nos reinventar após todo esse caos (para o pessoal do copo meio vazio, o questionamento ainda vem acompanhado de um “se sobrevivermos”)?  Sugiro que apenas olhemos para o que já se passou. Provavelmente já está escrito em algum lugar para que caminho seguiremos.

A única diferença, talvez, é que um computador ou outro apareça por aí. Quem sabe daqui uns anos, aquele holograma bacana que sempre sonhei. Mas duvido que ele nos impeça de repetir tudo de novo, fazendo questionamentos sobre até onde a grande racionalidade humana é capaz de ir. 

* É estudante de Comunicação – Jornalismo da UFSJ e produziu este texto sob a orientação do professor Paulo Caetano, numa ação do projeto Observatório da Saúde Coletiva – UFSJ.

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