

Carol Rodrigues
Notícias Gerais
Em Minas Gerais, assim como na maior parte dos estados brasileiros, os dados sobre a cor das vítimas do novo coronavírus ainda não são divulgados pelo governo. A informação poderia ser um importante indicativo para entender o perfil dos pacientes e para elaboração de políticas públicas.
Até então, a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES MG) publica apenas os dados sobre idade, gênero e cidade de moradia dos infectados, no entanto, não existe transparência quanto ao recorte de raça.
O Notícias Gerais entrou em contato com o Observatório da Saúde Coletiva da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), cujo os integrantes defendem que esta informação é importante para compreender de forma mais profunda como os diferentes grupos sociais estão sendo afetados pela pandemia de Covid-19.
Panorama da desigualdade
No Brasil, em um primeiro momento, considerou-se que a Covid-19 atingiria, de forma majoritária, pessoas ricas, já que o vírus foi “importado” de países europeus, como lembra a estudante de Medicina da UFSJ, militante do movimento negro e integrante do Coletivo NegreX, Michelle Venâncio dos Santos.
Logo depois, considerou-se que o vírus seria “democrático” e que atingiria todas as classes em uma mesma proporção. No entanto, “com a divulgação de alguns dados e com um olhar atento ao redor, essas duas ideias foram derrubadas, na medida em que entendemos que os sujeitos não têm o mesmo risco de infecção, demonstrando que as desigualdades raciais e sociais impactam diretamente as relações de adoecimento”, comenta.


Assim, é importante pensar no vírus também com um recorte social e racial, já que os negros e pobres integram a maior parte dos brasileiros que dependem do sistema público de Saúde. Na visão do Observatório da Saúde Coletiva, é importante alinhar dados da cor da pele com informações de classe, renda, gênero, local de residência e de trabalho para analisar os impactos sociais do vírus.
Conforme indicação do Observatório, não a questão não trata só sobre a cor das vítimas infectadas pelo novo coronavírus, mas sim uma combinação de fatores comuns às populações mais vulneráveis.
“São pretos, pobres, trabalhadores precarizados que vivem em áreas periféricas da cidade e que contam com baixo acesso a equipamentos públicos de saúde. Esses elementos combinados traçam o panorama da desigualdade brasileira”, considera o Observatório de Saúde Coletiva, por meio de nota coletiva à reportagem do NG.
Racismo estrutural fora da agenda
Para a participante do Coletivo NegreX, Michelle Venâncio, a não inclusão deste recorte racial nos boletins do governo é um indicativo de que a pauta negra ainda é pouco ouvida pelo Estado.
“Muitos estados ainda não tornaram a divulgação deste dado como obrigatória porque não encaram o racismo como um tema essencial em suas agendas. Não estão dispostos ao debate e nem preparados para lidarem com essa questão urgente, tratando a população como integrante do enraizado e falacioso mito da democracia racial”, defende Michele.
Para a estudante de Medicina, informar a cor dos pacientes é, também, uma forma de enriquecer a análise epidemiológica da Covid-19 no Brasil. Assim, têm-se mais informações para entender a dinâmica da doença, como ela se comporta e, também, mais base para elaboração de políticas públicas de enfrentamento e prevenção da pandemia.
No entanto, Michelle Venâncio considera que, acima de tudo, o levantamento racial é importante para tratar as vítimas com respeito. “Informar a cor das pessoas não é fazer um ‘recorte racial’, mas sim tratá-las com dignidade, na sua integralidade, porque os corpos têm cor. E os corpos negros são lembrados a todo o momento que são negros: seja com olhares, comentários, atitudes, exclusão de oportunidades ou negação de direitos”, completa.
O que diz o governo
A reportagem também entrou em contato com a assessoria de comunicação da SES MG, órgão responsável pela divulgação do boletim epidemiológico estadual.
Por meio de nota, a Secretaria de Saúde aponta que a notificação dos dados sobre a cor das vítimas da Covid-19 é de responsabilidade das prefeituras.
“Atualmente, apenas um sexto das secretarias de saúde municipais mineiras, em média, notifica à SES-MG sobre essas informações, o que dificulta a mensuração de um real cenário de infecções e casos de Covid-19, a partir de dados sobre a cor da pele dos infectados”, cita.
No mesmo comunicado, a SES certifica que estuda alternativas para a publicação dos poucos números que registram o recorte racial, ainda que não mensurem, de forma real, a situação da cor das vítimas em Minas Gerais.