Início Cultura GUIA CINÉFILO: O TERROR DE GEORGE ROMERO E JOHN CARPENTER

GUIA CINÉFILO: O TERROR DE GEORGE ROMERO E JOHN CARPENTER

Lucas Maranhão *

Nos últimos anos, vimos o surgimento de diversos filmes de terror que reacenderam o gênero. Como características, esses filmes apresentam um terror psicológico e abordam temas socialmente engajados. Os filmes de Jordan Peele – Corra (2017) e Nós (2019) – além das obras de Ari Aster – Hereditário (2018) e Midsommar (2019) – são alguns que fazem parte desse movimento. Isso fez com que muitos cinéfilos criassem um novo termo para esses filmes: o “pós-terror”, afirmando que eles seriam mais do que “apenas um monstro saindo das sombras para aterrorizar a vizinhança”.

Apesar disso, os fãs do gênero se posicionaram contra o chamado “pós-terror”, argumentando que essas características sempre estiveram presentes no gênero. Provas disso seriam os filmes de diretores como George A. Romero e John Carpenter, ícones da década de 70 e 80.

George Romero, por exemplo, usa sua famosa obra O Despertar dos Mortos (1978) como uma crítica ao consumismo, ao colocar um grupo de sobreviventes de um apocalipse zumbi dentro de um shopping center. Já Carpenter, em A Bruma Assassina (1980), desenvolve a história de uma pequena e conservadora cidade dos Estados Unidos que é assombrada por aqueles que morreram para que ela pudesse se desenvolver – cutucando a ferida do genocídio dos povos nativos.

O fato é que filmes de terror são filmes populares. E, geralmente, são depreciados por isso. Rotulados como filmes baratos, feitos com o objetivo de lucrar através de emoções rasas – seja susto ou o nojo. Uma visão limitada, propagada por “intelectuais da arte”, mas que nunca impediu o surgimento de grandes obras no gênero.

George Romero

O Despertar dos Mortos (Romero, 1978)

Romero é amplamente conhecido como o “pai dos zumbis modernos”, título conquistado com a incrível trilogia dos mortos – A Noite dos Mortos Vivos (1968), O Despertar dos Mortos (1978) e O Dia dos Mortos (1985). Apesar disso, a comum figura do zumbi surgiu antes e era carregada por preconceitos.

Um das primeiras obras que ajudaram a popularizar o zumbi na cultura popular foi o livro The Magic Island (1929), de W. B. Seabrook, que retrata de forma sensacionalista a prática do Voodoo no Haiti. O livro inspirou os primeiros filmes do gênero, como White Zombie (1932), tratando sempre o Voodoo como uma magia proibida, de um povo considerado inferior.

Já em seu primeiro filme, A Noite dos Mortos Vivos, Romero se apropria da figura do zumbi, mas subverte o viés preconceituoso que carregava. Para Romero o motivo que leva os mortos a se levantarem é científico – uma radiação espacial, um parasita, um vírus…

Desde então, os zumbis viraram parte significativa do panteão de “monstros do terror”, tendo seu ápice durante as décadas de 2000 e 2010.

John Carpenter

Eles Vivem (Carpenter, 1982)

Por outro lado, John Carpenter foi mais versátil em suas diversas incursões no gênero. Em Halloween (1978), por exemplo, contribuiu para a popularização do terror centrado na figura do serial killer, criando um estilo muito mais voltado para o terror psicológico do que para o violento (gore).

Já em O Enigma de Outro Mundo (1982) consegue unir as duas vertentes. Tendo como cenário uma base militar na Antártida, ele consegue causar o desconforto psicológico do isolamento e chocar com a violência pela qual os personagens são submetidos.

Vale ressaltar também Eles Vivem (1988), uma ficção-científica com pitadas de terror e críticas ao capitalismo. Carpenter cria um mundo onde os ricos são, na verdade, uma espécie alienígena infiltrada na Terra, explorando economicamente o restante da população.

Na cena final do filme, vemos um esnobe crítico de arte reclamando da violência nos filmes de terror. “Cineastas como George Romero e John Carpenter deveria ser mais restritos”, ele diz. Assim, Carpenter mostra que também há um pouco de humor no terror. E rindo de si mesmo, ele quer dizer que, se os filmes de terror não são valorizados, azar de quem não valoriza.

  • É jornalista, designer e apaixonado por cinema.

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