

Kamila Amaral
Notícias Gerais
No início da semana, o Notícias Gerais entrou em contato com farmácias de São João del-Rei e constatou um aumento na procura pela Ivermectina, o novo medicamento alçado ao posto de cura para Covid-19, mesmo sem qualquer comprovação científica do fato.
Para ouvir um especialista sobre o assunto e tentar abordar a situação a luz de estudos e conhecimentos científicos, o Notícias Gerais entrou em contato com o professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São João del-Rei (DEMED/UFSJ), Rodrigo Chávez Penha, cuja formação é em saúde pública, medicina da família e comunidade.
O professor explica que toda intervenção médica sobre um corpo humano gera os mais diversos efeitos, que podem ser divididos em benéficos, neutros ou maléficos. Um tratamento é desenvolvido para alcançar um objetivo benéfico: a melhora da condição ou mesmo a cura de uma pessoa doente. Se esse benefício não está claro, ficamos apenas com os efeitos neutros e maléficos. “Os neutros são parte de um outro problema: por que gastar recursos fabricando ou para comprar algo que não mudará a condição de um doente?”, questiona.
Ainda sim, o uso de tratamentos neutros, não exclui os maléficos. “Os maléficos são claros: se não há a evidência clara de que irá melhorar o doente, apenas expomos pessoas a prejuízos à sua saúde, já que não sabemos se haverá benefício”, explica Penha.
Os efeitos maléficos são popularmente conhecidos com efeitos colaterais, que são o resultado de um tratamento sobre o corpo que envolve geralmente o risco de adoecimento ou mesmo de morte.
No caso da Ivermectina, o professor explica que o medicamento tem efeito comprovado contra vários vírus e isso é conhecido há muitos anos. No entanto, seus efeitos in vitro, ou seja, em células dentro de placas de laboratório, não se repetiu em estudos em animais ou em estudos clínicos com humanos. “Mais além, para se conseguir efeitos contra o novo coronavírus, os pesquisadores usaram doses muito maiores do que as faixas consideradas seguras”, enfatiza.
Com o aumento da dosagem do medicamento, aumentam também as chances dos pacientes apresentarem efeitos colaterais e a gravidade desses riscos. “Entre os efeitos mais comuns, que em doses seguras apresenta um risco de 1% para Ivermectina, incluem inchaço (edema), diminuição da pressão em posições verticais (hipotensão ortostática) e aumento dos batimentos cardíacos (taquicardia)”, esclarece o professor.
Ele ressalta que estes resultados são especialmente problemáticos em pacientes que fazem uso de outras substâncias com os mesmos efeitos, como as usadas em CTI para tratar pacientes, ou com doenças que pioram nessas condições, como insuficiência cardíaca, mais prevalente em idosos.
Sem prescrição
A Ivermectina pode ser adquirida nas farmácias sem receita ou qualquer tipo de prescrição médica. Essa facilidade com que o medicamento pode ser adquirido aumenta os riscos causados pela automedicação.
Recentemente, elevados números de intoxicação por Acetaminofeno, o famoso Paracetamol, motivaram pedidos da agência estadunidense de regulação de medicamentos para redução de sua dose em comprimidos para os laboratórios. “Há menos tempo, ocorreu uma morte por intoxicação de uma pessoa nos EUA por ingestão de cloroquina feita para tratamento de aquários, evento amplamente ligado ao medo e à propaganda pelo uso da substância”, lembra Penha.
Ele ressalta que qualquer substância com efeito farmacológico que possa ser obtida sem orientação profissional torna-se um risco em tempos habituais. No caso da Ivermectina, o primeiro problema é a aquisição do medicamento para uso em doses muito abaixo do que foi necessário para matar o novo coronavírus em células dentro de placas de vidro. “Como falamos, se esta medicação é usada sem benefício visível para a Covid-19, só trará riscos de efeitos colaterais a quem use”, afirma.
Existe também a questão do risco financeiro, que pode ser mínimo, se o efeito do medicamento na pessoa for apenas neutro, ou maior, se for necessário tratar os efeitos colaterais causados pelo uso do medicamento. “Gasto que pode ser seu próprio ou pelo SUS, ou seja, com dinheiro de todos pagando efeitos do uso de um tratamento desnecessário”, pontua o médico.
O negacionismo e a crença
Enquanto alguns sequer acreditam na existência da Covid-19 ou em sua gravidade, outros apostam em medicamentos – ou até receitas caseiras – sem nenhuma eficácia comprovada, para combatê-la.
O professor acredita que é intrínseco do ser humano o impulso de agir ao invés de aceitar esperar melhores soluções. “A defesa dessa legitimidade de ação, por interpretar algo como urgente e uma limitada quantidade de conhecimento como suficiente, acredito que induz à arrogância de combater um argumento mais moderado, que pede calma para esperar um conhecimento mais bem fundamentado”, argumenta.
Segundo ele, os seres humanos são ensinados, de várias maneiras, que tem que resolver ativamente os problemas, como os heróis e heroínas dos filmes. Entre as poucas coisas que levam os humanos à humildade estão justamente uma ação citada, o estudo aprofundado que usualmente revela o quanto desconhecemos, e a consequência de agir sem fundamento adequado: o erro.
“A principal questão ética do erro em escolhas sobre saúde é a imputabilidade, especialmente para profissionais de saúde. Assim, acho que estes são mais induzidos a pensar antes de prescrever do que a pessoa leiga antes de simplesmente tomar um medicamento sem resguardo de embasamento científico adequado”, destaca.
Ainda assim, para alguns profissionais de saúde nem sempre tal risco sobre a vida de outros ou de punições parece ser suficiente para que condutas sem fundamento adequado ou que violem a ética profissional sejam evitadas.
Estudos Científicos
Atualmente, tanto a produção quanto a comunicação científica são muito mais ágeis. A disponibilidade pela internet de informações científicas das mais variadas qualidades, tipos e mesmo inacabadas não parece ser acompanhada pela adequada interpretação dos limites e incertezas que qualquer produção científica contém.
Assim, quando foram publicados estudos com dados duvidosos (algo apenas apurado posteriormente à ampla divulgação de um dos estudos que associou cura de pacientes ao uso de Cloroquina e Ivermectina), estes foram usados como base para que diversos tipos de pessoas, desde profissionais de saúde a pessoas com cargos importantes em governos, começassem a agir como se fosse algo definitivo.
“Claramente, o desejo dessas pessoas por dar respostas e um fim às crises provocadas pela pandemia parece ter sido mais forte do que a prudência de obter mais informações ou esperar melhores dados para tal decisão”, enfatiza o professor do Departamento de Medicina da UFSJ.
Ele explica que no caso de estudos científicos para Ivermectina e Cloroquina, o que se viu foram resultados de estudos em células em placas (os chamados estudos in vitro) e alguns dados de estudos observacionais (em que o pesquisador coleta dados e observa, com análises estatísticas usualmente, padrões que deseja verificar). Estes estudos são partes apenas iniciais para se avaliar tratamentos.
Os estudos reconhecidos como mais adequados para testar procedimentos são chamados experimentais: quando o pesquisador escolhe e é capaz de controlar a dose de medicamento aos doentes que efetivamente quer tratar, comparar com controles (pessoas ou animais com características semelhantes aos que são tratados, mas que não receberão o tratamento ou receberão um tratamento já bem conhecido, para comparar), e maior possibilidade de verificar a ocorrência de efeitos indesejados associados e de sucesso do tratamento (o alcance de metas pré-estabelecidas, como a ausência de detecção da doença -cura- ou uma melhora importante -como a redução de dias de internação hospitalar ou uma evolução mais branda).
“A responsabilidade do pesquisador em cuidar de todos os envolvidos na pesquisa, o tempo para se obter resultados em quantidades significativas (que estatisticamente possam ser uma amostra do que acontecerá com os demais doentes ou a população) e os investimentos necessários tornam esses estudos geralmente mais lentos do que a vontade de usar ou prescrever tratamentos, para alguns”, afirma o professor.