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MEMÓRIA NG: DA REVOLTA CONTRA O MACHISMO QUE MATOU HELENA E THIAGO À DOR DE VER O DESESPERO DOS AUTÔNOMOS BRASILEIROS FRENTE À COVID-19

Por Najla Passos
Da Editoria

Nestes dois meses de Notícias Gerais, já foram muitas as matérias que me marcaram. A que inaugurou o site foi uma delas. Com a reportagem de dados Gravidez da única vereadora de SJDR escancara machismo na política, eu pude denunciar esta ferida  que faz com que todas nós, mulheres, sejamos sempre apartadas dos espaços públicos de decisões. Com Ouvidores de vozes se reúnem para compartilhar experiências e afetos, reportei as histórias incríveis de superação e amor de pessoas incríveis.

Foram dois grandes dramas humanos, entretanto, que mais me marcaram neste percurso. Dois dramas que nos ajudam a desvendar a questão universal de como os seres humanos reagem de maneiras diferentes às adversidades da vida. Uns se enchem de ódio e rancor, outros, de amor e solidariedade.

Incêndio criminoso em Barbacena

Acordei cedo naquele domingo, 15/3, com a notícia de que um incêndio, em um prédio em Barbacena, ocorrido naquela madrugada, havia causado a morte de uma criança de apenas 4 anos, a Helena, e deixado onze pessoas feridas. Comecei a levantar as informações, produzir os textos, procurar as primeiras imagens. Coração acelerado, boca seca, estômago embrulhado. Meu mal-estar crescia a cada nova informação que colhia: a tragédia era grande… mas eu ainda não sabia da missa a metade!

Foto: Corpo de Bombeiros – divulgação

Foram uma, duas, três…. seis matérias só naquele domingo fatídico, produzidas com a ajuda do editor do Notícias Gerais, Arthur Raposo Gomes. Polícia, Bombeiro, Defesa Civil, Hospital… e a história que viralizou no país inteiro, atingindo a marca recorde de 50 mil visualizações individuais: a do vendedor que havia viajado 12 horas para passar o aniversário com a família e, no fim da festa, avistou as chamas e foi o primeiro a chegar para tentar socorrer as vítimas. Salvou muitas pessoas e se feriu tentando encontrar a criança perdida em meio ao fogo, sem sucesso.

Rafaell Donaldson Vale Ferreira, o Breds, ainda estava muito abalado com tudo o que tinha acontecido quando aceitou me dar entrevista, na tarde daquele mesmo dia. Sua emoção me contagiou a ponto de eu não segurar as lágrimas. E o texto, um tanto quanto emocional, acabou revelando a história de um homem comum que, cheio de empatia pela dor alheia, virou herói. Dias depois, Breds foi convidado até para concorrer a vereador de Barbacena.

Rafaell e Karina foram os primeiros a chegar no local da tragédia. (Imagem: Arquivo pessoal)

O Notícias Gerais continuou investigando o caso, com o reforço da repórter Carol Rodrigues, a partir do dia seguinte. Me revoltei quando descobri que o fogo foi provocado por um militar ciumento, que não aceitava o fim do relacionamento com a ex-mulher. Ele colocou fogo no carro dela, mas as chamas se alastraram pelo estacionamento e acabaram ferindo moradores do prédio e matando a menina Helena. Escrevi uma nova matéria alertando as mulheres para os riscos da violência doméstica.

Mas a tragédia ainda não tinha chegado ao fim. Um mês depois, o pai da Helena e  publicitário Thiago Faria, que teve 70% do corpo queimado no incêndio, não resistiu mais aos ferimentos e morreu. Novo golpe, novas lágrimas. Uma tragédia sem precedentes para me lembrar que você pode ter décadas de experiência no jornalismo, mas nunca estará devidamente preparado para cobrir um caso como este.

Helena, de 4 anos, e Thiago foram as vítimas fatais do crime. Juliana, sobreviveu. (Foto: Mell Caetano)

Trabalhadores autônomos e Covid-19

No dia 18/3, eu e as repórteres Carol Rodrigues e Kamila Amaral embarcamos para cobrir o mais característico passeio deste cantinho de Minas Gerais, a viagem de Maria Fumaça de São João del-Rei para Tiradentes. Carol se encarregou de registrar as imagens em fotos e vídeos. Kamila, de ouvir os turistas. Eu acabei ficando meio solta por ali, conversando com os trabalhadores da linha ferroviária.

E foi quando descobrir a história incrível da doceira Edna – mulher, negra e pobre que representa os bravos trabalhadores informais brasileiros, que fazem de tudo para sobreviver em um país de tantas desigualdades e de tão poucas oportunidades para a parcela mais pobre da população.

Edna, fazendo o que ama: vendendo seus doces no passeio de Maria Fumaça (Foto: Najla Passos)

No dia seguinte, Kamila amanheceu com febre e dor de garganta. Era o momento em que todos nós nos assustávamos com a chegada da Covid-19 no país. E ficamos muito preocupados, principalmente porque ela tivera contato com estrangeiros de países considerados área de contaminação comunitária. Felizmente, foi só uma gripe. Mas por conta disso, atrasamos a publicação da reportagem.

Dois dias depois, o consórcio que opera o passeio turístico suspendeu as viagens da Maria Fumaça. A reportagem que iríamos fazer sobre o passeio perdeu todo o sentido. Lancei o vídeo da Carol como uma despedida do passeio que, prevíamos, ficaria muito tempo sobrevivendo só na memória das pessoas.

Vídeo: Carol Rodrigues

Mas a história da Edna continuava martelando na minha cabeça. Foi quando tive a ideia de ligar pra doceira e pedir autorização para contá-la. Ao atender ao telefone, Edna estava aos prantos. Ela e o filho, os únicos com renda na casa, trabalhavam como autônomos na Maria Fumaça. Sem viagens, ficariam sem renda nenhuma. E ela acabara de alugar um ponto para montar uma mini fábrica de doces.

A história do desespero de Edna frente às incertezas da pandemia foi a primeira matéria sobre a dura realidade dos quase 40 milhões de trabalhadores autônomos do país, publicada aqui na região. Viralizou. Foi replicada em várias publicações. Tocou o coração das pessoas. Em um ato incrível de solidariedade, Carol Rodrigues criou uma conta no Instagram para divulgar a entrega delivery dos quitutes de Edna. As pessoas compraram. Foi quando eu tive a certeza de que a missão do Notícias Gerais era contar as histórias das pessoas simples, honestas e incríveis dessas Minas Gerais, que jamais encontram espaço na mídia tradicional, comprometida com o poder político e econômico local.

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